Blog do Instituto Casa de Autores, uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é fomentar a leitura e qualidade dos escritores no Brasil.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Memória

                                                                                       Foto: Paulo de Araújo


Esqueci de tudo. Não lembro a primeira vez disso ou daquilo. E no entanto sigo contando. Ficou mais fácil depois que descobri algumas coisas sobre a memória: que ela é o nosso mecanismo de esquecer, não de lembrar. Que é ela que nos permite selecionar o que fica e o que passa, guardar e perder os fatos da vida. E que ela jamais vai corresponder à verdade, apenas à nossa apreensão da verdade. Nossa versão. Assim fica mais fácil. O que conto está completamente sujeito à minha leitura, sem compromisso com registro histórico. Portanto, estejam certos que quase tudo deve estar errado. 

Clara Arreguy (fragmento de "Memória para esquecer", inédito)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Afinal, o que é educação financeira?






"Educação financeira visa adquirir bons hábitos financeiros."
Tem se falado muito em educação financeira nos últimos anos. Na mídia, nas empresas, nas escolas. O assunto inseriu-se no cotidiano das pessoas de maneira definitiva. Basta acompanhar noticiários, folhear boas revistas e jornais e lá está ela, a educação financeira colocada sob diferentes enfoques. Isso é animador!

Mas nem todos têm clareza do real significado de “educação financeira”. Até mesmo formas com que certas empresas, jornalistas e profissionais abordam o assunto contribuem para aumentar a confusão. Há quem pense que está relacionada a aprender a investir em ações, ou estudar o mercado financeiro, ou a economizar e deixar de gastar com supérfluos ou simplesmente fazer controle detalhado das finanças para manter-se afastado de dívidas.

Um pouco disso até faz sentido, mas não é essa a essência. Há quem confunda até com o ensino de matemática financeira. Aí a distância é enorme. Educação financeira é mais ampla do que tudo isso junto. E mais simples. Mas, se não for apresentada de maneira simplificada o bastante para sensibilizar e orientar, inclusive donas de casa e aposentados distantes do mercado financeiro, crianças e adolescentes, gentes de todas as classes sociais e de diferentes níveis econômicos e culturais, então não estará cumprindo seu papel.

Educação deve ser inclusiva. Principalmente a educação financeira.

Os princípios da educação financeira visam ajudar a adquirir bons hábitos financeiros para que as pessoas possam conquistar melhores condições de vida, sejam elas de famílias de baixa renda ou das classes mais privilegiadas. O foco não deve ser na busca de conhecimentos nem na perseguição de riquezas, mas na melhoria de atitudes e posturas que ajudem a fazer o dinheiro render mais, para que proporcione mais tranquilidade, mais segurança, mais conforto e mais prazer.

Atitudes simples como pesquisar preços, pedir descontos, comparar produtos e serviços, pagar à vista, controlar despesas, evitar desperdícios e dívidas, conhecer os direitos do consumidor, pensar no futuro, manter reservas financeiras para emergências ou oportunidades, fazer investimentos compatíveis com os sonhos, preservar bens e buscar a valorização do patrimônio, evitar compras por impulso, antecipar-se às armadilhas do comércio, resistir às tentações do crédito fácil, exigir nota fiscal, informar-se sobre condições contratuais, sobre prestadores de serviços, guardar termos de garantia, ser previdente, são atitudes simples que, quando adotadas por rotina, podem resultar em economias e ganhos financeiros relevantes. Atitudes como essas são reflexos da verdadeira educação financeira.

Além disso, podemos citar como bons exemplos o hábito de manter orçamento pessoal e doméstico, tendo como mínimo o controle sobre receitas e despesas, o de conferir extratos e demonstrativos bancários e de cartões de crédito, de fazer listas de compras, a leitura prévia de contratos, a valorização da ética nas questões financeiras, a diversificação dos investimentos, a busca pelas boas informações e a prática de falar sobre questões financeiras em família.

Por tudo isso, educação financeira deve ser vista como um conjunto de hábitos financeiros saudáveis que contribuam para melhorar a situação, o proveito e as perspectivas financeiras das pessoas.

O consumo consciente e responsável ajuda a proporcionar prazeres no presente e a viabilizar a segurança financeira para o futuro. Saber dosar adequadamente o quanto deve ser gasto no consumo diário e o quanto deve ser poupado e investido em previdência, proporcionando equilíbrio a essas duas necessidades, é uma das maiores provas de educação financeira que uma pessoa pode dar a si mesma.


Álvaro Modernell é membro do Instituto Casa de Autores, especialista em educação financeira, palestrante, autor de vários livros, projetos, cartilhas e artigos sobre educação financeira, além de sócio fundador da Mais Ativos Educação Financeira, referência nacional na área.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Fuga




Você já teve um daqueles pesadelos que parecem não terminar nunca?

Daquele tipo em que você acorda, assustado e aliviado por sentir o calor e a segurança de sua cama, até que o mundo vira de cabeça para baixo, e você, apavorado, percebe que seus temores não eram um sonho, afinal?

E depois acorda novamente, e a cena se repete, e você acorda de novo, e de novo, sem nunca saber se continua dentro do mesmo e terrível sonho, ou se finalmente acordou?

Pois, para mim, esta foi uma noite daquelas.   Acordei banhado de suor e respirando com dificuldade, mas fiquei grandemente aliviado quando percebi que finalmente acordara e o pesadelo havia chegado ao fim.

Isto, por cerca de um ou dois segundos.  

Foi o tempo que, assustado, levei para perceber que não estava em minha cama, e que o ar viciado que eu respirava combinava perfeitamente com a escuridão total que me cercava.

Tentei me mover, e percebi, desesperado, que estava preso em uma espécie de caixa.  Sem parar para pensar empurrei com toda força a tampa, e não fosse o peso das lembranças me assaltando ao mesmo tempo em que meus olhos reconheciam o ambiente, eu poderia jurar que continuava no pesadelo.

Eu estava dentro de um caixão, que descansava sobre uma mesa de mármore na mesma cripta do cemitério da cidade que eu havia visitado no dia anterior.

Com o medo fazendo subir a bile de meu estômago, pulei do esquife, meus olhos aflitos procurando a saída e circulando nervosos sobre inúmeros caixões, organizados em prateleiras de cada lado da cripta.

Com um grito que morreu em um nó na garganta, percebi que vários dos caixões se abriam, como se o barulho que eu fizera tivesse acordado seus ocupantes.  Apesar da escuridão do local, pude entrever corpos magros e pálidos, olhos vermelhos e dentes.  Grandes e afiados dentes.

Em pânico, disparei pela única saída da cripta, que levava ao mesmo corredor que eu percorrera no dia anterior.   Senti, mais do que vi, as sombras escuras que se aproximavam e gritavam como que em agonia, logo atrás de mim.

Ao fim do corredor pude ver um raio de luz, uma esperança ao longe que minhas pernas pareciam não ter força ou velocidade suficiente para alcançar. 

Com o desespero me impulsionando, não ousei me voltar, mas pude sentir o frio das mãos esqueléticas que tentavam me agarrar, rasgando minhas roupas e arranhando as minhas costas.  Pelo canto dos olhos, pude ver sombras correndo, movendo-se de maneira estranhamente inumana não apenas no corredor atrás de mim, mas também pelas paredes e teto.

A pouca distância.

Minha mente, estranhamente confusa, lembrava da cena semelhante, ocorrida no dia anterior: eu entrara na cripta, para roubar um crânio como uma estúpida prova de coragem para meus amigos.

As memórias, flutuando, trouxeram de volta à boca o sabor aziago do medo que senti quando, aterrorizado, vira – como agora - os caixões se abrirem lentamente. 

O desespero repetido de correr pelo mesmo corredor, com as mesmas sombras me caçando, quase me levou à loucura.

Sem tempo para articular nem um pensamento a mais, saboreei a sensação de júbilo e vitória ao me atirar para a luz do dia, deixando na escuridão os vampiros que gritavam de frustração e ódio.

Apenas quando senti a luz do sol queimando minha carne até os ossos foi que lembrei que no dia anterior havia uma grande diferença!

Eu havia corrido até o fim do corredor e, da mesma maneira, atirei-me para fora, deixando os vampiros para trás.

Porém a luz do dia, agora mortal para mim, me lembrava que no dia anterior, ao fim do corredor, eu havia encontrado a noite.  

E vampiros não temem a noite.

Alexandre Santos Lobão

Estamos de volta

Olá, amigos!

Depois de uma ausência de alguns meses, a Casa de Autores está revitalizando seu blog. Somos um grupo de escritores de Brasília e propomos, por meio do blog, difundir a leitura e divulgar nosso trabalho.

Os textos que vamos apresentar aqui são de autoria de integrantes da Casa de Autores, ora inéditos, ora trechos de obras nossas já publicadas.

Ao final de cada texto, identificaremos o autor e a obra.

Um grande abraço e esperamos que se juntem a nós nessa deliciosa aventura de escrever e ler.

Clara Arreguy

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O Pássaro Azul !!!!




O Passaro Azul 
sabe ser Rei !!!
Olha para perto...
e enxerga o 
que esta longe !!!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Tatiana Belinki

Zanone Fraissat/Folhess

Aos 93 anos, Tatiana Belinky responde a perguntas surpreendentes
GABRIELLA MANCINI
DE SÃO PAULO

A escritora Tatiana Belinky, uma das maiores autoras de literatura infantil no Brasil, completou 93 anos no dia 18 de março. Com a idade avançada, ela diz que não pode mais "furar onda ou andar de bicicleta", mas continua fazendo algo que adora: encontrar as crianças.
De tempos em tempos, recebe meninos e meninas em sua casa, no bairro Pacaembu (zona oeste de São Paulo, SP), para bate-papo. A "Folhinha" acompanhou o encontro da escritora com 25 alunos (a maioria com seis anos de idade) do colégio São Francisco Xavier, de São Paulo, neste mês. As crianças tiraram foto, pediram autógrafo, ganharam beijinhos e entregaram um limerique (poeminha divertido em cinco versos) que fizeram especialmente para Tati.
Confira abaixo trechos da deliciosa conversa.
PROFESSORA - Podemos chamá-la de você?
Tatiana Belinky - Claro. A única majestade que conheço é a Dona Palavra. Essa eu respeito e, quase sempre, obedeço.
ALUNOS - Quantas bruxas tem aqui na sua casa?
Ah, já perguntei, mas elas me enganam, mentem. Cada dia dizem uma coisa.
Por que você gosta tanto de bruxa?
Queria ser bruxa quando pequena. Mas depois conheci a Emília e achei que ela era melhor do que bruxa.
Quantos bichos você tem?
São dois cachorros, Max e Tuca, e sete gatos. E cada um com um jeito diferente.
Você tem filhos?
Tenho. E netos, bisnetos. Sou velhinha, viu [risos]? Velhinha, velhinha!
Tem computador?
O computador chegou tarde para mim. Usava máquina de escrever. Hoje escrevo à mão. Uso as duas: a direita escreve e a esquerda conversa com vocês [risos]. Tem canhoto aí? [Um menino diz: "Acho que tenho um canhoto", provocando risos. "O que é canhoto?" Tatiana, sorridente: "Quem escreve com a mão esquerda."]
De qual brinquedo você mais gostava na infância?
Livros. São mágicos, não acabam nunca. Você lê um livro hoje, daqui a três anos lê o mesmo e parece outro, porque você cresceu. Comecei a ler aos quatro anos. Aliás, qualquer criança é capaz disso, se quiser --e se não atrapalharem.
Qual o nome da sua mãe?
Rosa. Ela era muito bonita, mas muito brava também, cheia de espinhos.
Tem namorado?
Todo mundo é meu namorado [risos]. Tive um namorado por 50 anos [diz Tatiana, que é víuva, mostrando a aliança no dedo].
Você se parece com a minha avó porque ela tem cabelos brancos.
Gosto que eles sejam assim, brancos. Não dá para fingir que eu sou loira [risos].

sábado, 17 de março de 2012


LEDO IVO !!!




Viver e' esperar.
os vivos esperam
o fim do mormaco,
um amor, um onibus
e ate mesmo uma flor
amarela e bela
de uma primavera.
Os vivos se cansam
de tao longa espera
Deus nao chega nunca.
A mulher amada
vem sempre atrasada.


Vivir es esperar
Los vivos esperan
el final del bochorno,
um amor, un autobus
e incluso la flor
amarilla y hermosa
de una primavera.
Los vivos se cansan
de tan larga espera.
Dios no llega nunca.
La mujer amada
siempre llega con retraso.