Blog do Instituto Casa de Autores, uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é fomentar a leitura e qualidade dos escritores no Brasil.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Permissão para enriquecer: você tem?


Muitas pessoas trabalham incansavelmente e não conseguem fazer fortuna. Outras são agraciadas com prêmios de loteria e não conseguem manter-se ricas. Por que alguns conseguem enriquecer e outros não?

Enriquecer é um direito de todos. Sim, todos podem. Além dos caminhos para se “fazer dinheiro”, é necessário também conhecer as emoções que pavimentam essa estrada.

De maneira bem simples, podemos dividir a personalidade humana em duas instâncias: consciente e inconsciente. O consciente é aquela parte que dominamos e da qual temos controle. O inconsciente é aquela que não enxergamos, mas está lá, agindo o tempo todo, responsável por nossa estrutura emocional e nossas escolhas.

Se você tem o desejo de enriquecer, é importante verificar essas influências inconscientes na sua vida: no seu íntimo, acredita que a riqueza é para você?

Na maioria das vezes, as decisões financeiras são tomadas a partir de alguma emoção inconsciente e não de um raciocínio lógico e consciente. Se você quer enriquecer, mas, internamente, sente temor ou acha que “isso seria bom demais pra ser verdade”, sem perceber seu inconsciente poderá bloquear o sucesso financeiro.

Sua mente funciona a partir do que você sente e não do que deseja ou pede. Se quer riqueza, mas sente receio de não conseguir, no nível inconsciente você avisa seu cérebro de que existe a possibilidade de falha. O inconsciente sempre vence, porque é a parte mais forte. Se você tem medo da riqueza, será difícil consegui-la ou mantê-la.

Assim, para prosperar na vida, antes de adquirir autonomia financeira é necessário possuir autonomia emocional, ser capaz de produzir boas emoções e ser independente integralmente, agindo como uma pessoa adulta no mundo. Ser capaz de gerar dinheiro e administrá-lo bem é uma habilidade da pessoa madura, emocionalmente falando. Se você sente dificuldade em gerenciar a sua vida em outras esferas, provavelmente isso se refletirá também na administração das suas finanças.

Como você imagina que os ricos cuidam do seu dinheiro? Você já se imaginou sendo um deles? Ter muito dinheiro dá trabalho? Essas são questões importantes a responder se você deseja enriquecer.

É fundamental ainda ficar amigo do dinheiro para perder o medo dele, afinal, o desconhecido gera insegurança. E como se tornar amigo de alguém? Encontrando-se com ele e conhecendo-o melhor, dedicando tempo para essa pessoa, certo? A mesma regra se aplica ao dinheiro. Se você quer administrá-lo de forma eficiente, é essencial que tenha tempo para cuidar dele, para estudar o mercado financeiro e conhecer as formas que a sociedade estabelece para gerenciá-lo.

Outro aspecto importante é rever os modelos que seus pais lhe passaram sobre riqueza. Eles tinham dificuldades ou facilidades financeiras? Em qualquer caso, você tem permissão para superá-los? Você se sente à vontade para fazer diferente deles? Caso enriquecesse, sua família ficaria feliz ou incomodada com a sua fortuna? Geraria orgulho ou despertaria inveja? Você foi estimulado a romper obstáculos, a desbravar o novo e superar limites? Foi-lhe ensinado que podia fazer as coisas do seu jeito, levando em consideração suas características e necessidades individuais? Era respeitado e elogiado quando resolvia problemas de forma criativa? Esses podem ser pontos de bloqueio para o enriquecimento, pois a permissão interna para a prosperidade vem, primeiramente, do nosso clã.

Se você sente que não recebeu essa permissão, experimente construí-la dentro de você, fazendo escolhas saudáveis para sua vida, seja em relação à alimentação, relacionamentos, estilo de vida, profissão e também dinheiro.

Cuidar bem de si é o ponto de partida para cuidar bem das finanças. A fortuna não aparece do dia para a noite. A natureza não dá saltos. É uma estrada a ser construída dia após dia, onde você formará pensamentos ricos, sentimentos ricos e comportamentos ricos. Vivenciando a riqueza dentro de si, ao longo da vida, você trilhará um caminho consistente para o sucesso financeiro. Acredite!



Angélica Rodrigues Santos é psicóloga, professora, consultora da Libratta Finanças Pessoais e autora do livro “Família, afeto e finanças – como colocar cada vez mais dinheiro e amor em seu lar”, em parceria com Rogério Olegário do Carmo.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A história de L.

Foto: Ratão Diniz


L. nasceu numa pequena cidade do interior de Minas em 1919. Hoje completaria 90 anos, se fosse viva. Era a terceira filha de um casal que já tinha dois rapazes e que, depois dela, veio a ter mais uma menina. Os dois casais de crianças não usufruíram a mãe por muito tempo. Doente, ela veio a morrer quando L. e seus irmãos eram bem pequenos. Naquele tempo, não se usava um homem sozinho criar filhos. Com poucos recursos e tendo que trabalhar muito, o pai de L. pediu a uma cunhada, irmã da falecida, que cuidasse dela pelo menos por um tempo, até arrumar outra esposa capaz de assumir a família ao lado dele. Os outros filhos foram entregues em casas de outros parentes, até que as coisas se ajeitassem para o viúvo.

Demorou alguns anos até que ele encontrasse uma noiva. A que veio não estava muito disposta a criar filho dos outros. Além dos mais, os meninos já se acostumavam com as novas famílias onde já vinham passando os anos da infância. Daí que o pai de L. se casou de novo, teve outros filhos com a nova mulher, mas não levou de volta para casa os quatro mais velhos. L. mesmo não estava nem um pouco interessada na nova mãe. Vivia na casa da tia, era tratada como irmã pelos primos. E olha que a casa era cheia. Os tios tinham muitos filhos. Da idade de L. nenhum. Ela ficava no meio, entre o mais velho e o segundo. Depois deles viriam, com o passar dos anos, mais sete. Todas mulheres. E L. virou uma irmã mais velha para as meninas. Aplicada na escola, ajudava os primos no dever de casa e nos afazeres domésticos. Embora de temperamento um pouco contido, divertia-se com aquele monte de gente alegre.

Mocinha, L. era moderna. Usava calça comprida – não em qualquer ocasião, mas, por exemplo, quando o grupo ia passear com amigos pros lados da cachoeira que havia fora da cidade. Tudo familiar, sem ousadias nem indecências. Afinal, eram todos religiosos e bem-comportados. Nas festinhas da igreja e nos passeios pela praça conheceu M., por quem logo se encantou. Ele era inteligente, alto e bonito, o que muito agradava L. porque ela também era mais para alta. Não queria namorar baixinho e fazer feio. Gostava de usar um saltinho e a companhia de M. permitia isso. De boa família e trabalhador, M. se mostrou o candidato ideal a bom partido – ainda que seu humor nem sempre fosse dos melhores, com propensão ao ciúme, o que, antes de preocupar L., lhe dava uma ponta de orgulho. De modo que a tia e o tio fizeram gosto no romance entre ele e L. Eles próprios comunicaram ao pai de L. que ela tinha um pretendente. Todos ficaram satisfeitos, porque, mesmo cursando o normal, o que lhe possibilitava a profissão de professora, o melhor futuro para uma moça de família era se casar e ter filhos. Ser mãe e dona de casa.

Foi o que sucedeu nos anos seguintes. No início dos anos 40 L. e M. se casaram ainda no interior. A estabilidade da vida de casado, no entanto, não acalmou as variações de humor de M. Aos poucos, o que eram ciuminhos começou a se mostrar algo mais irracional. M. se alterava facilmente, por qualquer bobagem. E com qualquer pessoa. Com L., naturalmente, por estar mais perto. Era o comprimento da saia, era o penteado do cabelo (deu de achar ruim até a permanente que ela fazia no cabelo e que tanto o atraía nos tempos de solteiros), era a cor do café, era o hábito dela de cantarolar baixinho. Fora de casa, também, os maus modos de M. se acentuaram rapidamente. Brigava no serviço, no comércio, na rua. Os primos chegaram a comentar en passant com L. que o amigo tinha mudado muito. Não era mais o boa praça de antes.

A gravidez de L., de um filho tão desejado pelo casal, não melhorou as coisas. Da extrema felicidade pelo momento de completude à irritabilidade com as coisinhas de grávida, como enjoos, desejos e a perda de roupa que não mais cabia, as reações explosivas e inesperadas de M. passaram a apontar algo de doentio. Algo havia, mas L. não conseguia se dar conta do que fosse. O nascimento do filho não só não contribuiu para acalmar as coisas, como acrescentou mais um elemento de tensão para L. Ela temia o que pudesse vir do marido descontrolado se o menino chorasse à noite, fizesse xixi e cocô vezes sem conta, como é próprio dos bebês, regurgitasse golfadinhas como faz qualquer criança saudável.

E era o que acontecia. Percebeu que seus temores não eram infundados num dia em que M. gritou diante do chorinho do neném e partiu para cima dele, com as mãos abertas rumo a uma palmada inaceitável – não num ser de poucos meses de idade. Mais que depressa ela se interpôs entre o agressor e a vítima em potencial, gritou mais alto que os dois e, tal qual uma leoa ou outra fêmea animal que age apenas por instinto, ameaçou-o com a voz mais grossa de que seria capaz:

– Se tocar um só dedo no meu filho, te mato!

Ele reagiu ao susto na hora. Baixou a mão, baixou a cabeça, saiu do quarto, saiu de casa. Ela pegou o bebê no colo, correu até a casa da tia e pediu ajuda a primos, primas e maridos de primas. Queria que fossem com ela até a casa, ajudassem-na a fazer as malas e a catar suas coisas e as da criança. Quando M. voltou para casa naquela noite, não encontrou mulher, filho, nada. Apenas um bilhete no qual L. avisava que o estava deixando e pedia que ele não a procurasse mais, a não ser que aceitasse se tratar, porque o que ele tinha só podia ser doença.

M. ainda tentou procurá-la para conversarem. Queria dizer o quanto a amava, que não entendia aquelas súbitas perdas de controle emocional, que estava disposto a mudar por amor a ela e ao filho. Ela, ainda assustada e com medo, não quis ceder. Ele então fechou a casinha onde moraram por tão pouco tempo e voltou para a casa dos pais e das irmãs. Só que lá as coisas não melhoraram. Revoltado com o abandono da esposa, M. dava ataques cada vez mais frequentes. Até que brigou no serviço e perdeu o emprego, o que levou suas irmãs a convencerem os pais a chamar um médico especialista. E foi então que o psiquiatra diagnosticou esquizofrenia. Remédios não continham mais os surtos de M. Ele teve que ser internado no manicômio de Barbacena, onde veio a passar décadas de sua vida, até morrer de velhice aos cinquenta e poucos anos.

L. passou uns tempos na casa dos tios. Mas não queria ficar por perto, sujeita às abordagens de M. Decidiu então mudar-se para a capital. Lá, com um dinheirinho que seu pai lhe mandava regularmente, trabalhou uns tempos de professora primária enquanto uma empregada de confiança a ajudava a cuidar do filhinho. Antenada, descobriu que podia fazer concurso público e, inteligente e esforçada, logo passou num para o governo. Mudou-se então para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como servidora federal. Certa época, quando os tios e primos já moravam todos em Belo Horizonte, pediu transferência para uma repartição na capital de Minas. Sentia-se sozinha no Rio, ela e o filho.

O menino cresceu bonito e inteligente, mas L. sempre temia que o gene ruim do marido vingasse no filho. Aparentemente, era um temor infundado. Ele era alegre, sem variações de humor. Mas ela sabia que a falta do pai, ou mesmo de uma figura masculina de referência, ainda se faria sentir. E foi o que sucedeu no início dos anos 60, quando o rapazote conheceu o pessoal da organização de direita que agitava bandeiras em defesa da pátria, da família, da religião e da propriedade privada, em oposição aos movimentos de esquerda que também pipocavam na época. Aos quinze anos, o filho seguiu caminho com os novos amigos da organização. Por mais que ela pedisse que ele não a deixasse só, não houve meio. Ele se sentia com uma missão, e apto a encará-la. E foi em frente.

L. não era de lamúrias nem chorumelas. Achou ruim – péssimo – o filho se emancipar tão cedo, mas manteve sua vida de funcionária pública zelosa. Foi por essa ocasião que o governo começou a oferecer vantagens a quem se interessasse em mudar para Brasília, onde as oportunidades de emprego, os cargos e as comissões, pululavam. Sem nada a perder ou a deixar pra trás, L. aceitou a transferência. O salário era tão bom que lhe permitiu, pouco depois, aposentar-se no teto da carreira e desfrutar de boa remuneração. Só não passava a inquietação. L. então, depois de viver mais de dez anos na nova capital federal, resolveu morar em São Paulo uns tempos, para ficar mais perto do filho – nessas alturas, ele, com seu brilho e carisma, já era dirigente da organização da qual fazia parte. Na capital paulista L. se sentiu mais só do que nunca. O filho não tinha tempo para ela. Fora visitá-la com mais frequência quando ela morava em Brasília ou em Belo Horizonte do que nos tempos em que partilhou com ele a mesma cidade.

Daí que L., velha e independente, decidiu que moraria onde lhe desse na telha. Voltou para Belo Horizonte, para perto das primas e dos filhos das primas, entre os quais tinha afilhados. Quando soube da morte de M. no sanatório, voltou mais uma vez para Brasília, mas o clima não lhe agradava. Experimentou o Sul de Minas, o frio a incomodou. Por fim, adotou o Rio, a cidade mais bela e agradável entre as que conheceu e pelas quais arrastou sua solidão.


L. ficou velha e surda. Era lúcida, gostava de ler os jornais e ver o noticiário na televisão. Mas, à medida que perdia a audição, menos comunicação tinha com o mundo. Se já não colecionava amigas nem relações, sem a audição acabava por se isolar mais e mais. Por causa da decadência física, achou melhor trocar o apartamentinho onde morava por uma casa de repouso, uma instituição que cuidava de idosos. O custo era alto, mas o filho a ajudava a se manter, com assistência de enfermeira,

nutricionista, cuidadores profissionais. E o lugar compensava tudo: no alto de uma pedreira, em Copacabana, entre a favela e a parte chique do bairro mais famoso da capital fluminense, com a vista ampla da Baía de Guanabara e do vasto oceano de cor indecifrável. Foi ali que L. morreu, sozinha, sem ligação com o mundo, sem dizer adeus a ninguém e sem ouvir de alguém uma palavra.

Clara Arreguy

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Liberdade artística x mercado – a velha discussão...

 

Volta e meia, sou abordado por escritores iniciantes, em palestras ou por e-mail, perguntando-me sobre os limites da assim chamada "liberdade literária".

Colocando de outra forma: quanto de liberdade podemos usar quando produzindo um texto e quanto precisamos nos ater a regras? E que regras são essas, afinal? Diálogo precisa começar com travessão? Posso escrever com erros de português se estiver representando um personagem que fala ou escreve errado? Posso escrever um livro da mesma forma que falo? E da mesma forma como escrevo em um blog?

A pergunta, obviamente, é capciosa, e a resposta ainda mais.

No meu entendimento, teoricamente você pode fazer o que quiser quando está escrevendo. 

Digo teoricamente, assim, em itálico, porque há pelo menos dois grupos importantes a considerar:

·         Seus leitores. Se você quer agradá-los, precisa escrever algo que seja adequado ao seu público-alvo. Quem compra um livro não espera (por enquanto) encontrar um diálogo do tipo "Vc naum gosta dela? kkkkkk!".

·         As editoras. Se você está pensando em vender seu trabalho para uma editora, deve considerar que um texto com erros propositais, com experimentalismos ou qualquer coisa que torne a leitura exageradamente difícil, é pouco recomendado, especialmente para novos escritores.

Isso quer dizer que você precisará "sacrificar sua arte em prol do comércio"?

Não.  Apenas significa que você precisará, como todo profissional, estudar, treinar, aperfeiçoar sua capacidade de se expressar dentro da sua arte – a escrita – para conseguir, de forma mais precisa, mais completa, mostrar o que deseja mostrar – sem vícios e erros que aparecem com a desculpa da "liberdade artística".

Obviamente, quanto mais famoso você for, mais liberdade terá para escrever do jeito que quiser – mas enquanto não chegar lá, provavelmente precisará ser bem mais conservador. Lembre-se que Picasso (foto), no início da carreira, era um exímio retratista, e só depois da fama mostrou ao mundo a arte do jeito que ele realmente desejava mostrar!

É como dizia o apóstolo Paulo: "Tudo posso, mas nem tudo me convém"...


Alexandre Lobão

terça-feira, 30 de julho de 2013

Haicai


Haicai é um poema de origem japonesa, que chegou ao Brasil no início do século XX e hoje conta com muitos praticantes e estudiosos brasileiros. No Japão, e na maioria dos países do mundo, é conhecido como haiku. Segundo Harold G. Henderson, em "Haiku in English", o haicai clássico japonês obedece a quatro regras:

• Consiste em 17 sílabas japonesas, divididas em três versos de 5, 7 e 5 sílabas
• Contém alguma referência à natureza (diferente da natureza humana)
• Refere-se a um evento particular (ou seja, não é uma generalização)
• Apresenta tal evento como "acontecendo agora", e não no passado.

No transplante do haicai para outros países, algumas das regras anteriores são seguidas com maior ou menor fidelidade, enquanto outras podem ser mesmo ignoradas, dependendo de cada poeta ou da escola seguida.

No Brasil, quem popularizou o haicai foi Guilherme de Almeida, com sua própria interpretação da rígida estrutura de métrica, rimas e título. No esquema proposto por Almeida, o primeiro verso rima com o terceiro, e o segundo verso possui uma rima interna (A 2ª sílaba rima com a 7ª sílaba). A forma de haikai de Guilherme de Almeida ainda tem muitos praticantes no Brasil.

Outra corrente do haikai brasileiro é a tradicionalista, promovida inicialmente por imigrantes ou descendentes de imigrantes japoneses, como H. Masuda Goga e Teruko Oda. Esta corrente define haikai como um poema escrito em linguagem simples, sem rima, estruturado em três versos que somem dezessete sílabas poéticas; cinco sílabas no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro. Além disso, o haikai tradicional deve conter sempre uma kigo. Estas são palavras ou frases, utilizadas na poesia japonesa, que têm uma associação com uma estação do ano. (Ex.: "sakura", "flor de cerejeira", é associada à primavera).




PRIMAVERA

A flor sussurra
Junto ao vento que passa
É Primavera

Elba GGomes



FOLHA

A folha seca
Nada na correnteza
Agora é mar

Elba GGomes



 BORBOLETA

A borboleta
Beija bem de mansinho
O seio da flor


Elba GGomes

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Sob o signo de Peixes



Imediatamente após o convite, eu me lembrei do livro grande do meu avô, que ficava dentro da gaveta da mesa de jantar e de cortar costura, localizada ao lado do filtro Fiel. Entre as páginas do livro, uma coletânea do Jornal do Commércio que abrangia o ano transcorrido após a data da independência, havia toda espécie de coisas: retratos muito antigos, convites de casamento, de enterros, santinhos de primeira comunhão, volantes de propaganda eleitoral, uma pena de pavão e outra de arara e, naturalmente, os recortes preferidos.

Na minha infância, fingindo que estava com sede, chegava ao filtro e me postava diante da mesa, como estátua, até que vovó, percebendo o desejo que extravasava, dizia “pode”, vasculhando com o olhar os outros cômodos da casa, para se certificar de que meu avô tinha saído. Eu ia direto ao exemplar do dia 9 de março de 1922, uma quinta-feira, que abrigava a folha de papel almaço, acetinado. Na primeira página, os dizeres: “O Calendário da Revolução – Decretado pela Convenção em 1792, só foi abolido por Napoleão 13 anos depois”. No verso e nas demais páginas, 12 gravuras se expunham, em grupos de quatro. Representavam os meses do ano, cuja duração parecia coincidir com a dos signos do zodíaco: Pluvioso, Ventoso, Germinal, Floreal, Prairial, Messidor, Termidor, Frutidor, Vendemiário, Brumário, Frimário e Nivoso.

Por causa dessas ilustrações, me afeiçoei à história da França, sobretudo ao estudo da Revolução Francesa e dos fatos posteriores a ela. Assim, de férias em outra cidade, julguei-me predestinada quando conheci Thiers, o rapaz que me fizera o convite. Não levei em consideração o papel repressor que Louis Adolphe Thiers desempenhara contra a Comuna de Paris. Afinal, o Thiers que eu conheci era brasileiro, moreno de olhos azuis, muito bem educado.

Demorei um pouco a responder, porque a silhueta rechonchuda e o rosto apreensivo da mulher do Calendário vieram-me à memória. Trajava um vestido da cor sépia, que contrastava com o mar claro do fundo. Uma das mãos, enérgica, segurava esvoaçante véu branco. A alça trançada de uma cesta enfeitava o braço direito, sob o qual se alongava um anzol. Na superfície da cesta, alguns peixes exibiam suas pequenas caudas. À esquerda, juncos inclinados pelo vento erguiam-se de um cesto maior. Era a efígie que representava o mês Ventoso, de 19 de fevereiro a 20 de março, período que abarca o dia do meu aniversário. Sou de Peixes.   

- E então, você quer ir comigo ao Ventoso?
- Ventoso é um barzinho?
- Se você aceitar, saberá. Não, não é um barzinho.
- E quando iremos?
- Amanhã à noite.

Não podia imaginar a que lugar Thiers se referia. Não quis perguntar aos meus primos, fiquei sem graça. E na completa ignorância, saí de manhã, para comprar sapatos e roupas. Eu morava numa cidade muito pequena e não tinha acesso a coisas bonitas. Por isso, preferia reservar um pouco do meu parco salário de professora, e, se aparecesse alguma viagem, gastá-lo com produtos mais finos, para me exibir na minha cidade pobre, ainda que na missa das dez.

A bem da verdade, dessa feita o motivo do passeio fora outro. Estava mais ou menos apaixonada por um rapaz da minha cidade, que não estudava, não tinha emprego, mas era alto e de feições elegantes. Meu pai, contudo, não achava que o porte físico suprisse deficiências intelectuais ou financeiras e, tachando o rapaz de “gentinha”, se ofereceu para completar o valor da passagem até onde moravam meus tios, na esperança de que eu trocasse de namorado. Pode parecer cinismo, mas aceitei. Naquela época, para mim, era melhor ficar triste numa cidade diferente, do que chorar nas margens do riacho estreito, infenso às minhas lágrimas.

Conhecera Thiers há dois dias. Na primeira vez em que o vi, eu estava na pracinha com meu primo, um adolescente alegre. Ríamos porque, devido ao calor, os sorvetes pingavam e manchavam nossas roupas. Thiers nos olhou, foi até à confeitaria, e voltou com vários guardanapos. Agradeci-lhe a gentileza, e, após as apresentações e algumas delongas, ele me convidou para ir ao cinema. Fui, mas não sozinha. Por imposição dos meus tios, meu primo nos acompanhou. Se Thiers se decepcionou com esse fato, pelo menos não disse nada. Na segunda vez, fomos sozinhos à confeitaria, na tarde ensolarada. Depois disso, mais nada. Eu tentava açular o tempo para conhecer o Ventoso.     

Estava indócil, naquela manhã. Olhava as vitrines sem me fixar no que queria, naquilo de que precisava. Pensava em Thiers e no convite. Ventoso me parecia nome de barco, de cavalo, de mirante. Contudo, a cidade não tinha lago, muito menos mar. Nunca me falaram sobre hípicas e o mirante que eu já conhecia não se chamava assim. Meu primo me alertou:

- Você está desperdiçando seu tempo. Por que não compra a saia vinho e o mocassim vinho e branco? Você me disse que queria isso...

Olhei para a vitrine e gostei das peças. Poderia usá-las com meu conjunto de banlon branco. Diante de tanta harmonia, me veio à ideia ir ao cabeleireiro, ficar linda para conhecer o Ventoso e encantar Thiers. Despedi-me do primo e adentrei o salão mais sofisticado que eu já vira. Tive vontade de recuar, correndo, minha aparência talvez fosse canhestra, rir-se-iam de mim, eu era muito sem traquejo. Tarde demais, porém. A atendente, polida em excesso, me olhou de cima para baixo e, diante das minhas pretensões, me indicou uma moça bem maquiada, que foi decidindo:

- Seu cabelo, sendo pouco, ficará bonito se fizermos uns bucles, para armar o penteado. Nas unhas, esmalte rosa-choque.

Minha voz saiu tênue:

- Quero esmalte cor de vinho...

Ela me olhou, como se eu tivesse falado uma heresia. Eu não quis explicar nada e me encerrei no escudo dos tímidos, o mutismo absoluto. Muito sofri. Meu cabelo, curto, se alongava um pouco na nuca, até se desfazer em fios esbatidos. A cabeleireira enrolava os cachos e esmagava-os com prendedores de metal, cujas pontas quase me tocavam os ombros.

- Agora, você vai para o secador.

Muito mais tarde deduzi que a moça me castigara pela escolha do esmalte. No secador, os prendedores se esquentaram e queimavam-me a pele, sem piedade. Muda e envergonhada, deixei pra lá, tal como faço diante de situações adversas. Desempenhava, agora, o papel de bruxa sobre a fogueira, com muitos pecados, entre eles o de querer pintar as unhas com esmalte vinho.  

Por volta das 20 horas, Thiers tocou a campainha. Eu já estava cansada, antes mesmo de sair. A maquiagem dera trabalho, a base muito bem espalhada para cobrir as manchas da minha nuca, marcas da ígnea aventura.

Thiers não estava de carro e, na calçada, me disse que o Ventoso se erguia a dois quarteirões dali. Não elogiou minhas roupas, nem o cabelo, fato que me causou estranheza. “Que coisa! Sofri com esse cabelinho mirrado, gastei todo meu dinheiro com a saia e o mocassim, que agora se enterra na poeira e se esgarça nas calçadas mal cuidadas, e ele nem nota?”

- Ainda está muito longe?
- Não. Na verdade, eis o Ventoso.

Confesso que não entendi. Tudo estava muito escuro, mas divisei um muro velho, com a argamassa carcomida, totalmente sem graça. Aqui e ali, algumas proeminências, como se fossem colunas. “Será alguma construção colonial?” Mergulhada nessas dúvidas, que somente a imaginação poderia gerar, me assustei quando percebi uma moça apoiada no muro. Apertei o braço de Thiers, em busca de apoio.

- O que é isso?
- O Ventoso, um muro para os namorados se acariciarem em paz. Um lugar no qual tudo é permitido, abraços, beijos, a gradação é enorme...
- Você não me deu a entender que se tratava de uma coisa assim. Por que eu? Levo jeito de oferecida, é isso?
- Não, não leva. Tanto que não tive coragem de descrever o Ventoso para você. Mas, já que estamos aqui...
- Não, não estamos aqui. Estamos em outro tempo, em outro espaço, nos quais você se fazia passar por bem educado e gentil. Vou-me embora.

Na tentativa de um abraço, o relógio de Thiers se desprendeu e acabou sorvido pela escuridão e pela poeira. Aproveitei o que para ele era um contratempo e retornei, sem olhar para trás. “Eu me enganei de novo. Como Thiers pôde proceder assim? Não tem sensibilidade, é louco varrido. A ousadia dele é sem limites. Por que pensou que eu iria me submeter, encostada no muro, como cariátide sem-vergonha?”

Não consegui dormir. O rosto de Thiers adquiria formas que se alternavam: anjo, demônio, sabiá, gavião, lírio, flor carnívora. E a cada imagem, meu sentimento por ele se modificava. Eu manipulava os fatos, inventava personagens que empurraram Thiers para protagonizar o horrível desfecho. Até que, exausta, me rendi.

O sol abriu as portas para a sanidade e me permitiu transpor o espaço melodramático. Thiers nunca estivera apaixonado por mim e eu, em verdade, também não o amava. Queria um substituto para meu namorado “gentinha” e vivera uma farsa.

Estava à mesa, no café da manhã, quando a campainha tocou. Era Thiers. Não desejava vê-lo, mas não quis levantar, em meus tios, a suspeita de que algo dera errado. Assim, fui recebê-lo. Constrangido, ele me disse:

- Sinto muito pelo que aconteceu ontem. Mas, sou sincero. Estou à procura de alguém que aceite aquele muro. Não quero me comprometer, não quero me apaixonar, sou apenas um estudante. Mas, se possível, gostaria que me perdoasse. Trouxe algo para você, para que possa se lembrar de mim sem rancor.

Recebi o embrulho das mãos dele, mas não o abri. Não disse uma palavra. Apenas olhei para aquele rosto que eu quisera amar e deixei que ele se fosse. Mais tarde, em meu quarto, desamarrei a fita e abri a caixa, com vontade de chorar. Era um pequeno paralelepípedo de acrílico, compacto e transparente, com uma estreita faixa branca que definia a base. Lá dentro, um peixinho alaranjado em seu cenário: um pouco de alga e algumas folhas pontiagudas, semelhantes às do junco. O enfeite desprendia carinho, como o que devia existir nas faces anjo, sabiá e lírio de Thiers.

Após todos esses anos, ainda tenho o meu peixe, que fica ao lado da coleção de miniaturas de navios. Às vezes me lembro de Thiers. As coincidências que cercaram nosso encontro fugaz me espantam: o nome do muro, os peixes e o junco na ilustração do mês Ventoso, meu signo zodiacal e o peixinho empalhado que Thiers me deu.

Meu signo é representado por dois peixes, ligados por um cordão de ouro, que, nadando em sentido contrário, indicam ambivalência. Há uma analogia flagrante entre a representação do meu signo e o enfeite: apesar da presença de um só kinguio, há outro peixinho imaginário, ligado ao seu duplo pelo fio de Thiers. Quando considero que Thiers quis apenas me devolver a autoestima, o peixinho visível sou eu. Se, contudo, Thiers pretendesse se dar a mim, o kinguio real seria ele. Tais considerações me levam aos eternos conflitos do meu signo, desta feita representados por uma indagação: quem está preso no paralelepípedo de acrílico, Thiers ou eu?


Edna Vieira Rocha de Rezende

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Minha biografia



Aprendi a gostar de ler estimulada pelo livro de Viriato Correia: Cazuza, um menino que, na ilustração da capa, segurava as calças curtas num suspensório de alça única. Queria saber a história que motivara as ilustrações do livro. Isso aconteceu no Rio de Janeiro, onde nasci e vivi os primeiros anos, na Rua Fonte da Saudade. Depois fui mudando de colégio e de países, aprendendo a língua que se fala neles, além de aprender a tricotar em francês, a ver televisão em inglês, a jogar basquete em espanhol e a rezar em latim, quando estudei no colégio interno. Lembro que em Genebra, Suíça, quinta-feira era dia de folga e sobrava tempo para pular corda e andar de patinete. Em São Francisco, Califórnia, querendo ser como todo mundo, saudava a bandeira americana e estudava matemática trocando os pontos pelas vírgulas. Na América Central, além de que a terra tremeu, tive de escrever com o sinal de interrogação virado de cabeça para baixo e o acento agudo contrariando as regras da nossa língua. Sorte que nas mudanças de colégio e de países por onde andei — até parar em Brasília — nunca deixei de levar comigo O Sítio do Pica-Pau Amarelo e a coleção Menina e Moça, que me deram base para ser uma escritora brasileira.


Margarida Patriota

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A leitura da leitura



Se você está lendo este texto significa que está entre os 26% da população que atingiu o alfabetismo pleno. Você conquistou e dominou uma das tecnologias mais sofisticadas e refinadas que o processo civilizatório desenvolveu. Compreende que a leitura é emancipadora, libertadora, iluminadora e nos permite observar a vida através de muitos outros olhares, o que nos amplia a visão de mundo.

Mas, segundo a recente pesquisa da Ação Educativa e do Instituto Paulo Montenegro, juntamente com o Ibope, 32,5 milhões de brasileiros acima de 15 anos são analfabetos funcionais, ou seja, apenas decodificam as palavras, mas são incapazes de compreender o que leem e de usar a leitura e a escrita como instrumentos de ação efetiva em suas práticas sociais. E, mais grave, o ensino universitário não assegura uma solução, pois 38% dos portadores de diploma de curso superior não alcançam o nível de alfabetização plena.

Esses dados não são surpreendentes em um país de não leitores. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2011, do Instituto Pró-Livro, mostrou que 50% dos brasileiros não têm o costume de ler, 75% da população nunca entrou numa biblioteca e a média de livros por habitante/ano é 4, inclusive os didáticos; sem os didáticos, a leitura cai para 1 livro por habitante/ano. Em países de primeiro mundo, os índices indicam mais de 10 livros por habitante/ano. Se considerarmos que a leitura é um fator essencial para o desenvolvimento humano, social e econômico de um país, pois o avanço tecnológico depende de qualificação e a qualificação está ligada à habilidade de leitura, encontramos um dos motivos do nosso atraso.

É urgente reverter o quadro da leitura no Brasil. Mas dominar essa competência envolve um percurso, muitas vezes descontínuo e cheio de obstáculos, e qualquer iniciativa em direção ao estímulo à leitura deve envolver diversos agentes e diferentes segmentos sociais: famílias, escolas, professores, bibliotecários, autores, meios de comunicação, governo.

O desenvolvimento da leitura depende de: convívio contínuo com histórias, livros e leitores, desde a primeira infância; valorização da leitura pelo grupo social; disponibilidade de acervo de qualidade e adequado aos horizontes de desejo e aos diferentes estágios de leitura dos leitores; tempo para ler, sem interrupções; ambiente de segurança psicológica e de tolerância dos educadores em relação ao percurso individual de superação de dificuldades; e oportunidades para expressar e compartilhar interpretações e emoções vividas nas experiências de leitura.

O ato de ler, seja um texto informativo ou de Guimarães Rosa, é, simultaneamente, uma atividade individual única e uma experiência interpessoal profunda e intensa, um exercício dialógico ímpar, pois entre leitor e texto desencadeia-se um processo de decifração, interpretação, reflexão e reavaliação de conceitos absolutamente renovado a cada leitura.

A leitura exige procedimentos mentais complexos que são construídos pela mediação do outro: o pensamento abstrato, a memorização, a atenção voluntária, o comportamento intencional, as ações conscientemente controladas, a generalização, as associações, o planejamento, as comparações, ou seja, as funções superiores da mente que nos fazem humanos, como afirma Vygotsky.

Nem sempre é um procedimento fácil. Faz inúmeras solicitações simultâneas ao cérebro. Desde a decodificação de signos, interpretação de itens lexicais e gramaticais, agrupamento de palavras em blocos conceituais, identificação de palavras-chave, seleção e hierarquização de ideias, associação com informações anteriores, antecipação de informações, elaboração e reconsideração de hipóteses, construção de inferências, compreensão de pressupostos, controle de velocidade, focalização da atenção, avaliação do processo realizado, até a reorientação dos próprios procedimentos mentais para a compreensão efetiva e responsiva, realiza-se um complexo processo cognitivo. E ler se aprende lendo.

Além disso, a leitura não se esgota no momento em que se lê, mas se expande por todo o processo de compreensão que antecede o texto, explora-lhe as possibilidades e prolonga-lhe o funcionamento para depois da leitura propriamente dita, enriquecendo a vida e o convívio com o outro. Como se vê, trata-se de uma atividade exigente, que vai na contramão dos apelos da nossa sociedade veloz. Em boa hora o MinC e a Biblioteca Nacional lançam a campanha Leia Mais, Seja Mais, no âmbito da ações do Plano Nacional do Livro e Leitura, que tem com um dos seus eixos a valorização social da leitura.


Lucília Garcez é doutora em Linguística, escritora, ex-professora da UnB, autora de Técnica de Redação, Ed. Martins Fontes, entre outros.