Blog do Instituto Casa de Autores, uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é fomentar a leitura e qualidade dos escritores no Brasil.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Você sabe usar seu cartão de crédito?


Para responder a essa questão, faça o seguinte: ligue para a administradora do seu cartão e peça para trocar a data do vencimento das próximas faturas para dois dias antes da chegada do seu pagamento. Isto é possível? Se a resposta for sim, você usa bem o seu cartão de crédito. Parabéns. Se você respondeu não, sinto muito dizer, você está encrencado.

Se esse é o seu caso, você está usando o cartão de crédito para ter crédito; não quero dizer que você esteja errado, afinal o cartão é de crédito e qualquer criança sabe disso, perceba o diálogo:

- Papai, compra isto prá mim?

- Hoje não dá, papai está sem dinheiro.

- Então dá o cartão...

E tem mais, por trás desta pequenina ferramenta você ainda pode estar escondendo, de você mesmo, gastos e atos que não quer ver ou assumir. A começar por colocar o cartão de crédito como item de seu orçamento mensal – “gastei R$ 3 mil de cartão de crédito”. É mesmo? Você comeu, dirigiu e vestiu cartão de crédito? Não, você comprou alimentos, combustível, passagens, roupas, e pagou com cartão de crédito, muitas vezes escondendo a sua real situação financeira e aquelas compras que fez de impulso, por carência, estresse, raiva, inveja, etc. Compras que você jamais faria se tivesse que pagá-las com dinheiro.

Além disso, o cartão de crédito tira de você a contrapartida (sensação) do pagamento. Para entender isso é muito simples, basta prestar atenção: na próxima compra, pague em dinheiro e observe o seu dinheiro indo embora. Na compra seguinte pague com o cartão de crédito e note que você recebe o(s) produto(s), entrega o cartão e, em seguida o recebe de volta. Para o seu cérebro, nada aconteceu. O cartão, ao contrário do dinheiro, voltou para você. E agora o pior: para verificar quanto dinheiro ainda há, você consulta o banco, que lhe dá uma informação falsa, pois a compra paga com o cartão só aparecerá tempos depois, o suficiente, muitas vezes, para que você tenha esquecido do que foi comprado.

Para resolver isso, que tal chamar seu de cartão de crédito de cartão de dinheiro? Afinal, ele é dinheiro vivo e bem vivo. Logo, antes de usar o cartão, faça a si três perguntas: posso pagar com dinheiro? Posso pagar com cheque? Posso pagar com cartão de débito?

Se a resposta for sim a uma dessas condições, então você pode pagar com cartão de crédito, para a sua conveniência, por ganhar algum bônus. Se respondeu não, você não deve usar o cartão, pois estará contratando crédito, gastará mais do que pode e terá que contar com a chegada de seu próximo pagamento para quitar a fatura.

Eu já sei, você vai dizer que planejou, cuidadosamente, a data de vencimento da fatura para 2 dias após a data de seu salário. Isso não é vantagem alguma, pois, ao pagar a fatura, você ficará “duro”, atrasado 28 dias em seu orçamento mensal. Assim, com pouco dinheiro, você não conseguirá usar os demais meios de pagamento, tornar-se-á dependente do cartão de crédito e só comprará onde ele for aceito. Perderá a liberdade financeira, o que é o primeiro passo para o endividamento.

Cartão de crédito é dinheiro e como tal deve ser usado. Ao pagar com cartão de crédito, mesmo que o dinheiro não saia de sua conta corrente, ele deve sair de sua cabeça e de sua planilha pessoal. Assim, você viverá à frente dele e poderá desfrutar do conforto e das facilidades que ele traz. Encerro lançando um desafio: antecipe a data de vencimento de sua fatura para dois dias antes de seu pagamento. Sua tranquilidade e seu futuro agradecem.


Rogério Olegário do Carmo, consultor financeiro pessoal e especialista em administração financeira e mercado de capitais, é coautor do livro "Família, Afeto e Finanças – Como levar cada vez mais dinheiro e amor em seu lar", em parceria com a sua esposa, a psicóloga Angélica Rodrigues Santos.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Sete dias


Às vezes imagino o que os livros de história do futuro vão falar sobre esses dias...
No entanto, sempre tenho certeza sobre o que eles não vão falar.
Mas não estou escrevendo para deixar algum registro da época para gerações futuras – até porque não sei se haverá gerações futuras. Nem escrevo por amor à arte de escrever ou qualquer outro motivo nobre, como fazer uma homenagem àqueles que sei que vão morrer ou coisa semelhante.
Não, nada disso. Escrevo para organizar meus pensamentos. Escrevo para coordenar minhas ideias e tentar, com isso, lembrar-me melhor das coisas que virão.
E se com isso algo coerente acabar vazando para o papel e a História, melhor.
Mas escrevo, somente, para sobreviver.


DIA 1


Acordei – acordei? – sentindo-me estranho naquela manhã de terça-feira.

A cabeça enevoada trazia um tom de irrealidade para tudo, como se eu estivesse apenas parcialmente consciente. O banho gelado não ajudou a dissipar o incômodo.

Enquanto tomava café e me preparava para ir à universidade, revisei mentalmente o que havia feito no dia anterior e o que comera no jantar. As lembranças demoravam a chegar, como se fossem resgatadas de um local distante e profundo, mas mesmo assim tive certeza de que não fizera nada que pudesse justificar aquela sensação.

Na UnB, à medida que as aulas evoluíam, comecei a me sentir mais e mais ansioso, como se algo muito importante estivesse para acontecer, até chegar à última aula do dia – Física 2, onde estudávamos Física Ótica.

O professor havia desenhado um conjunto de lentes de formatos variados no quadro verde, e estava começando suas explicações quando, de repente, eu sabia o que iria acontecer.

Levantei-me e, caminhando quase como hipnotizado, aproximei-me de Leonardo, que como sempre estava sentado na primeira fileira. Por alguns segundos fiquei olhando para sua fronte franzida, como se ele estivesse desenhando mentalmente as lentes e raios, até que, em algum ponto entre seus olhos e o quadro, uma luz começou a brilhar.

Por alguns poucos segundos, a pequena nuvem luminosa cresceu, depois começou a se compactar e tomou a forma de uma lente de gelo, enquanto crescia o alvoroço entre a turma. Mais um pouco e Leo soltou um gemido de exaustão, desmaiando, enquanto a lente caía no chão, estilhaçando-se com um ruído surdo.

Menos de uma hora depois, vídeos gravados por dois celulares de alunos da turma já estavam no Youtube, mas, com a quantidade de vídeos falsos e histórias absurdas circulando diariamente na internet, simplesmente foram engolidos pelo excesso de informações. Eu apareço no canto de um desses vídeos – sou o cara de pé, com jeans rasgados e uma camisa vermelha, que parece estar em transe enquanto olha para a lente se formando.

Quanto aos jornais, a verdade é que a única notícia para eles foi a que um estudante tinha entrado em coma durante a aula e despertado apenas no dia seguinte – ninguém se interessou pelas histórias fantasiosas da turma, supondo ser algum tipo de trote.

Já entre os alunos, inúmeras teorias foram criadas e abandonadas antes mesmo que Leo acordasse. A mais cotada, bem me lembro, era que de alguma forma ele usara seus “poderes mentais” para agregar o vapor d'água do ar (daí a pequena nuvem luminosa) que, sob pressão, mudou de estado até ficar sólido. Agora, como ele havia desenvolvido ou adquirido esses “poderes mentais” ainda era um mistério que continuaria – continua – sem solução.

Provavelmente a história teria caído no esquecimento e se transformado em mais uma lenda urbana, se tudo tivesse acabado por aí.

Mas não acabou.

DIA 2


Dois dias depois eu continuava com aquela sensação estranha, como se não estivesse totalmente acordado.

Na verdade, dizer isso não é preciso. O certo é que, como em um sonho, o tempo parecia “pular”: eu sentia como se nada houvesse acontecido entre o episódio da lente na sala de aula e aquela tarde de quinta. A lembrança de dois dias atrás, estranhamente, era muito mais clara que a do dia anterior.

O trote que vínhamos preparando para os calouros do curso finalmente estava pronto para ser pregado: Fomos à aula de educação física dos calouros, devidamente equipados com “carroças” prontas para a corrida.

Os calouros ficavam encarregados de puxar suas “carroças” – na verdade, plataformas de madeira com rodas de rolimã – por cinquenta metros da pista de corrida do Centro Olímpico da Universidade. A promessa é que aquele que chegasse primeiro seria dispensado dos cortes de cabelo e tintas que seriam aplicados aos demais.

Obviamente, nosso objetivo era não deixar nenhum deles atingir a linha de chegada!

Na pista de corrida, os dez veteranos mais pesados subiram nas carroças e entregaram as cordas para dez “voluntários” puxarem.

Dos dez calouros que começaram a puxar as “carroças”, apenas oito conseguiram tirá-las do lugar. Após cerca de quinze metros, um segundo veterano subiu em cada carroça, e mais quatro desistiram. Mais uns quinze metros e um terceiro veterano subiu, deixando três dos calouros restantes largados ao chão, bufando. Só um continuou, esforçando-se para chegar à linha de chegada, vinte metros à frente.

Um pouco mais à frente, mais um veterano subiu à carroça, se apertando aos demais para caber na apertada prancha de madeira. O calouro, de corpo mediano, se esforçou mais e, animado pela gritaria dos outros calouros, continuou.

Agora, era uma questão de honra não deixar a carroça cruzar a linha de chegada, poucos metros à frente. Como não havia mais espaço na carroça, Pam-Pam – um veterano que, sozinho, pesava mais que quaisquer outros dois juntos – substituiu um dos veteranos sobre a carroça. O garoto bufou, se esforçou e continuou, pé ante pé.

Quando faltavam apenas dois ou três metros, outros dois veteranos se agarraram aos demais sobre a carroça, equilibrando-se para não cair, dispostos a parar o calouro de qualquer jeito. A carroça rangeu e, com um estalo forte, o eixo traseiro quebrou, quase derrubando dois veteranos e forçando o calouro a parar por um instante. Outros veteranos correram para aumentar o peso, fazendo uma algazarra.

Mas o jovem, suando e com o olhar esgazeado fixo na linha de chegada, continuou puxando.

Quando ele finalmente cruzou a linha de chegada, a carroça tinha duas rodas a menos, e quase dez pessoas se equilibravam, umas sobre as outras, na plataforma de madeira. Pelos cálculos que fizemos, alguns dias mais tarde, ele estava arrastando mais de seiscentos quilos sobre a áspera pista de corrida.

Como Jean (esse era o nome do calouro) não tinha nada incomum que saltasse aos olhos – como “superforça” ou algo assim –, na época ninguém ligou esse episódio à materialização da lente em sala de aula dois dias antes. Após a surpresa inicial, sem termos chegado a uma explicação razoável para o que acontecera, as especulações foram deixadas de lado e ele simplesmente virou um herói entre calouros; e mesmo os veteranos respeitaram sua capacidade de não desistir.

Usualmente, ele não tinha força, velocidade ou inteligência além do comum – mas ele sempre conseguia um pouco mais, quando realmente se esforçava. Ninguém pensou que justamente essa capacidade de extrair energia além do limite, quando todos já haviam desistido, era algo além do normal.

Quer dizer, ninguém pensou nisso até a próxima segunda-feira, quando tudo começou a acontecer ao mesmo tempo.

DIA 3


Acho que neste ponto cabe uma digressão, quem sabe algo me vem à mente enquanto tento organizar os pensamentos, resgatando da memória os dias que precederam aquela primeira terça-feira...

Quando tudo começou a acontecer. Era assim que nos referíamos àquela semana quando... bem, quando tudo começou a acontecer!

Conforme os devaneios dos nerds viciados em histórias de ficção científica e em quadrinhos da nossa turma, algo deveria ter acontecido nos dias que precederam a primeira manifestação de “poder” – a criação da lente por Leo. Um meteoro contendo esporos alienígenas teria caído, alguma fenda para outra dimensão teria se aberto ou algum tipo de tempestade cósmica teria atingido a Terra, provocando mutações.

Ainda segundo eles, precisávamos nos precaver, porque em breve apareceriam funcionários do governo tentando nos prender, como se fôssemos algum tipo de ameaça à segurança nacional; ou, quem sabe, um grupo de cientistas de alguma organização desconhecida surgiria para ou justificar o acontecido ou para nos capturar para análise e posterior reprodução de nossas habilidades em larga escala, para vender ao exército do país que pagasse mais.

Bem, até onde eu sei, eles estavam errados em ambas as coisas.

Alguns dias mais tarde, quando descobri o porquê de minha mente estar sempre enevoada e de alguns dias parecerem mais reais que outros, fiz uma pesquisa extensa na internet, em jornais, blogs e até mesmo sites de diversos grupos religiosos e esotéricos. Absolutamente nada diferente aconteceu naqueles dias que precederam a primeira manifestação – pelo menos nada de que a humanidade tivesse se dado conta.

Tentei analisar os alunos das turmas envolvidas, buscando pontos em comum, mas havia gente de toda parte do país, e de outros países, gente que poucas semanas antes vivia a centenas ou milhares de quilômetros de distância. Os estranhos eventos ocorriam apenas com estudantes da UnB, como se algo houvesse sido iniciado daquele ponto, mas o que era, e se ficaria restrito à universidade, ainda não sabíamos.

Quanto ao governo... Bem, eles levaram quase vinte anos para elaborar as primeiras leis sobre a internet; e não seria dessa vez que se tornariam mais ágeis. Nada de cientistas malucos, também, embora diversos de nós tenham demonstrado suas habilidades em diversos laboratórios de universidades e centros de pesquisa do país, quando a área científica finalmente acreditou que não era mais um golpe de mídia.

A mídia... Essa sim, agiu rápido. Em pouco tempo estávamos nos jornais, e já na segunda semana chegavam a nós propostas variadas, desde estrear comerciais e posar para revistas, até o convite para estrelarmos uma versão especial do programa “Big Brother”, em uma casa habitada apenas por pessoas com habilidades especiais.

Mas estou divagando. Divagando sobre o que sei que vai acontecer. O que eu queria dizer é que, naquela segunda, as coisas de repente começaram a acontecer mais rápido.

Logo no início do dia, a Samara – uma bela morena que havia entrado no mesmo semestre que eu – “empurrou” um engraçadinho que estava enchendo sua paciência, sem tocar nele, na área das lanchonetes. O garoto caiu sentado e foi arrastado por uma força invisível por mais de cinco metros, parando próximo a alguns grupos que discutiam os episódios da semana anterior.

Quando uma segunda pessoa – um sujeito que cursava arquitetura, de quem não lembro o nome – descobriu que conseguia influenciar os outros, durante uma partida de truco, alguém levantou a hipótese de que as ocorrências indicavam que algo estava acontecendo em larga escala na universidade.

Bastou a fagulha dessa ideia para uma verdadeira febre se abater sobre todos, cada um buscando, de forma escondida ou explicitamente, descobrir se tinha algum tipo de “poder”.

E de fato alguns outros descobriram que efetivamente conseguiam fazer algo diferente. Nada de coisas “absurdas” (olhe só para mim, falando de absurdo em uma situação dessas!), como fazer o corpo pegar fogo, ficar invisível ou esticar. Mas, definitivamente, coisas fora do normal.

Algum tempo depois, eu e alguns dos outros começamos a perceber um certo padrão nos poderes que se manifestavam, pois todos pareciam de alguma forma associados a faculdades mentais. E, em nossas pesquisas, curiosamente descobrimos que todos os “poderes” pareciam ter precedente entre os milagres atribuídos a “santos” e “gurus” no correr da História.

Mas estou novamente me adiantando. Naquela segunda, que convencionei chamar de “dia 3”, tudo começou.

Mas o que realmente me levou a escrever foram os fatos de hoje; o “dia 4”. O dia em que descobri por que minha mente tem estado enevoada, e o dia em que descobri por que tenho tanta certeza sobre algumas coisas que ainda estão por acontecer.

DIA 4 - Hoje


Hoje, novamente, acordei com aquela estranha sensação de que minha mente estava enevoada.

Tentei me lembrar do dia anterior.

Apesar de o “dia 3” estar bem claro na minha lembrança, precisei de vários minutos me esforçando para tentar recuperar a memória do que ocorrera nas duas semanas seguintes.

Assustei-me quando percebi que dezesseis dias tinham se passado desde aquela segunda-feira. Conferi no relógio, olhando com estranheza a data: quarta feira, 22 de abril de 2009. Mas por que as duas semanas passadas estavam tão enevoadas?

A revelação me chegou como uma luz em um quarto escuro, que cega antes de desvendar. Ainda que eu não soubesse por que, um medo terrível fez doer minha barriga e um calafrio subiu pela espinha, enquanto lágrimas me brotaram nos olhos, sem que eu conseguisse impedir.

Eu estava tentando lembrar para o lado errado! Por isso era tão difícil!

As memórias do futuro me atingiram de forma fragmentária, como se eu estivesse tentando ver algo que continuamente fugisse do meu foco de visão. Quanto mais eu lembrava, maior o medo se tornava, ainda que eu não conseguisse ver ainda o porquê desse medo.

*          *          *

Desisto de ir para a universidade, até porque sinto que não adianta ir lá até que tenha uma ideia clara sobre o que preciso fazer.

Abro a tampa do laptop e começo a escrever, para organizar as ideias, para clarear na mente os últimos dias e quem sabe com isso ajudar a lembrar dos dias que virão.

Às vezes imagino o que os livros de história do futuro vão falar sobre estes dias... No entanto, sempre tenho certeza sobre o que eles não vão falar.

Mas não estou escrevendo para deixar algum registro da época para gerações futuras – até porque não sei se haverá gerações futuras. Nem escrevo por amor à arte de escrever ou qualquer outro motivo nobre, como fazer uma homenagem àqueles que sei que vão morrer ou coisa semelhante.

Não, nada disso. Escrevo para organizar meus pensamentos. Escrevo para coordenar minhas ideias e tentar, com isso, lembrar-me melhor das coisas que virão.

E se com isso algo coerente acabar vazando para o papel e a História, melhor.

Mas escrevo, somente, para sobreviver.

O medo dói em meu estômago enquanto me forço a lembrar dos últimos dias, enquanto me preparo psicologicamente para tentar lembrar dos dias que virão.

Há duas semanas, Pam-Pam, o veterano grandalhão, começou a apresentar estranhos calombos nas costas. Sua mãe o levou a um dermatologista, que verificou que as protuberâncias que se assemelhavam a espinhos eram de um material semelhante às unhas – embora nós achássemos que pareciam mais com pequenos chifres de rinoceronte. Seus cabelos começaram a cair e em uma semana não havia um só pelo em seu corpo. Sua família, assustada, o enviou para uma clínica de oncologia nos Estados Unidos, na esperança de que algum médico possa diagnosticar melhor o que está ocorrendo.

Marco, um calouro que tinha vindo do Rio de Janeiro, estava assistindo a uma aula quando pareceu entrar em transe. Ao fim da classe, quando todos se levantaram para sair, perceberam que ele permaneceu sentado. Alertados já pelos estranhos acontecimentos que vinham ocorrendo, chamaram sua família. Quando seu pai chegou, a turma já havia percebido que ele não estava em transe – apenas se movia muito, muito lentamente. Carregaram-no para uma ambulância e não tivemos notícia dele desde então.

Mas nem todos os casos eram dramáticos. Por exemplo, Míriam, uma nissei extremamente simpática, descobriu que conseguia projetar sua mente com facilidade para qualquer lugar, tendo inclusive visto seus avós no Japão e trazido notícias para sua família. Seus pais estavam orgulhosos, julgando que a “projeção astral”, como chamavam, era uma evidência de que a filha estava transcendendo a matéria e entrando em um estado búdico.

Casos de transes extáticos, empatia, telepatia, bicorporiedade, levitação, transcomunicação, clarividência, transfiguração e outros tantos termos resgatados da literatura religiosa e esotérica pipocavam todos os dias no campus e, embora algumas pessoas tentassem ignorar seus dons e continuar levando vida normal, alguns os viam como pretexto para abandonar totalmente o que faziam e partir em busca de alguma coisa nova.

Estranhamente, mesmo depois de vinte dias desde o episódio com Leonardo na aula de Física Ótica, só os estudantes da UnB eram afetados – nenhum professor, funcionário ou visitante havia demonstrado nada de excepcional.

Ao recordar os fatos das últimas semanas, percebo que não lembro de ter desenvolvido esse dom de lembrar coisas futuras em nenhum momento.

Na verdade, me recordo que minha vida correu de maneira bastante normal nestas últimas semanas, exceto pelo alvoroço que ocorria à minha volta toda vez que alguém começava a levitar, a falar em línguas estranhas ou emitir um halo de luz em volta da cabeça.

Então, compreendo que apenas nos dias em que minhas lembranças estão mais claras – os dias um, dois e três e o dia quatro, hoje – eu realmente lembrei de algo futuro. Mas é mais que isso: nos outros dias, eu nem mesmo me recordava de que havia lembrado de algo futuro!

É quando a verdade, mesmo que ainda incompleta, me atinge com um soco no estômago: minha habilidade não é a de lembrar de coisas futuras como se houvessem acontecido!

Minha habilidade é de projetar minha consciência para dias passados!

Por isso a data me pareceu estranha no início do dia: antes de acordar hoje, eu havia acordado quase dois meses no futuro, em 7 de junho!

Aos poucos, a memória vai retornando, ainda embrenhada em fumaça, e percebo que meu poder não é absoluto: preciso lutar com o cérebro do meu “eu” atual para resgatar as lembranças, sejam do futuro, sejam do passado do dia atual.

Com o medo fazendo subir a bile até minha boca, olho pela janela para o dia que se encerra e finalmente percebo que trouxe duas mensagens bem claras de minhas memórias do futuro:

A primeira, de que algo ruim, muito ruim, vai acontecer caso eu não use as lembranças que ainda não consegui resgatar para mudar determinados fatos do passado.

E a segunda, que tenho apenas sete chances, sete dias onde minha alteração pode fazer diferença.

Lágrimas de medo me escorrem no rosto quando defronto a realidade imutável: o quarto desses dias terminou.

E eu ainda não me recordo do que preciso fazer!



Alexandre Santos Lobão

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Conto de Natal



Meu nome é Severino e tenho 10 anos. Moro num grotão, no interior do Estado... Não importa o nome. Sou brasileiro. Aqui moram 10 famílias e tenho 10 irmãos. Acho que o número 10 me acompanha porque sempre tiro 10 na escola. Pois tem uma escola no meu recanto e a professora anda 10 léguas para chegar aqui. Eu gosto muito de estudar e sou apaixonado com o estudo dos mapas porque eles me mostram que existem mais lugares e pessoas diferentes no mundo. Minha professora é muito sabida. Ela conhece o mundo inteiro viajando pelos mapas. Ela tem muitas fotos de vários países que ela recorta de revistas. Eu nunca vi uma revista, mas me contento com o que ela mostra. Assim, eu conheci o mar, a montanha, as cidades, a neve, os carros, os barcos, os aviões e até homens que voam de cima de uma pedra. É muito legal porque de noite eu fecho os olhos e vejo de novo tudo o que ela mostrou.

Esta semana, a professora falou muito sobre o Natal e mostrou árvores enfeitadas com bolas coloridas, sininhos e estrelas. E tinha até neve. No alto, um anjo de asas abertas sorria pra gente. Ela explicou o que era o Natal, falou do nascimento de um menino pobre numa manjedoura (um lugar onde se põe comida para os animais: as vacas e os bois) e que esse menino tinha vindo ao nosso mundo para salvar os homens. Eu não entendi bem essa parte, mas achei lindo aquele menininho ali junto com os bichos. Ela também explicou que uns reis (homens com coroa na cabeça) levaram presentes para o menininho.

Nossa professora explicou que, hoje, no lugar dos reis, existe um velhinho de barbas brancas, chamado Papai Noel, que dá presentes a crianças no mundo inteiro. E que ele não consegue presentear todas as crianças. Só que ela não explicou isso direito. Eu até vi a foto dele. Parece boa gente. E anda num negócio chamado trenó puxado por uns bichos parecidos com cabras de grandes chifres

Ela inventou uma brincadeira conosco: a gente fechava os olhos e imaginava o velhinho dando presentes para nós; figuras de bicicletas, carrinhos, bolas, bonecas, roupas, sapatos e livros: muitos livros para ler. Fiquei feliz com meu presente: a figura de uma bicicleta. De noite, apaguei a lamparina e sonhei com meu Natal: montado na minha “bicicleta”, fui ao encontro de Papai Noel. Ele me perguntou o que eu queria. E eu respondi que queria de presente uma resposta à minha pergunta: “Você conhece as crianças pobres do Brasil?”


Elba GGomes

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Girassol



Todo mundo me dizia
Que o lindo girassol
Assim era chamado
Porque gostava do sol

Um dia fui conversar
Com aquela flor amarela
- Girassol, conte a verdade
Você gira em torno do sol?

E antes que a flor falasse
Linda como aquarela
O sol saiu de uma nuvem
E respondeu cheio de amor:
- Eu é que acompanho a flor
Pois sou apaixonado por ela

Elba GGomes

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Instantâneos – Momentos de Dor IV


12. De manhã, quando ela abriu o Facebook estava lá a mensagem dele pedindo amizade. Depois de trinta anos, sentiu o mesmo palpitar no coração, o mesmo arrepio na pele. Respirou fundo e apertou a tecla deletar.

13. Ao abrir o livro, cai um recorte de jornal: “Quem encontra um amigo encontra um tesouro”. Volta a sua mente a imagem do pai, de quem herdara o livro: alegre, risonho, bonachão, otimista, generoso, paciente. “Isso era bem dele”, pensa instantaneamente. E sua atual solidão, sua vida amarga, seu isolamento começam a pesar como se fossem uma traição ao que ele sonhara para a vida de sua filha.

14.
Zapeando pelos canais de TV ela deparou com a imagem dele. Tantos anos depois, a mesma fisionomia tranquila que esconde um vulcão submerso, a mesma voz pausada e reticente, as mesmas mãos suaves em gestos moderados, somente os cabelos encanecidos marcam a passagem do tempo. Sua voz, alterada pelos instrumentos eletrônicos, traía um torvelinho interior que somente ela poderia perceber e decifrar. Turbilhão que ela se negou a apaziguar quando eram ainda muito jovens.

15.
Quando as cicatrizes do sofrimento já estavam quase curadas ele telefonou. Tinham passado alguns meses de separação e ela já estava voltando à tona, enfrentando a rotina, experimentando uma pouco de paz. Mas ele telefonou e o redemoinho de emoções invadiu novamente toda a sua mente e o seu coração. Voltava à estaca zero. Quase sem prestar atenção nas suas explicações ela o aceitou novamente como sempre fizera.

16.
Em sua cadeira de balanço, as mãos jogadas sobre o colo, os cabelos brancos amarrados em um coque na nuca, os óculos abandonados na mesa ao lado, ela mentalmente calculou  os anos que tinham se passado desde que o conhecera. Eram mais de quarenta. Entretanto sua imagem permanecia tão nítida e tão vívida como se não tivesse passado nenhuma hora de seu último encontro.


Lucília Garcez

sábado, 30 de novembro de 2013

Comprar ou não comprar, eis a questão!

                                                                                                                                                                                                                             
O Natal está chegando e, para muitas pessoas, é um tempo de estresse: confraternizações, festas e muitas compras! Este pode ser um bom momento para uma reflexão importante: preciso, quero, posso comprar?

Nesta época, a intensidade das propagandas e apelos de consumo cresce. Esses, às vezes, são claros, e outras vezes, subliminares. Para nos sensibilizar, o comércio usa músicas que nos remetem à infância. E utiliza mensagens do tipo: “Demonstre seu amor àquela que tanto cuidou de você – presenteie sua mãe com uma joia! Ela merece!” “Você só começa a pagar no ano que vem!” “Dez vezes sem juros”. “Fique tranquilo! Com o 13º salário você cobre as despesas extras!”

Infelizmente, Natal é tempo de armadilhas também. Especialmente pra quem passou o ano longe de casa, dos filhos, dos pais ou mesmo do cônjuge. A culpa é o “ingrediente perfeito” para um consumo exagerado.

Com a chegada das festas, aparece também uma oportunidade de compensar “tudo o que não foi dado” durante o ano. Afinal, o clima natalino inspira reconciliação, compreensão, amizade... As pessoas esquecem seus desafetos e se confraternizam.

Antes das compras, é interessante se perguntar: “Posso presentear as pessoas? Realmente quero fazê-lo? Qual é a minha verdadeira motivação ao presentear alguém?”. Experimente fugir das obrigações. Se decidir presentear, faça-o direito. Pense no que o futuro presenteado realmente gosta. Senão você corre o risco de dar algo que não tem nada a ver com a pessoa e que vai parar no fundo do armário!

Presentear significa que você quer “se dar de presente” a alguém, de tanto que você gosta dessa pessoa. É isso mesmo que você deseja quando vai presentear? Um presente de verdade é aquilo que é capaz de encher o outro de alegria por ter se sentido lembrado e querido por quem o presenteou. Dar por obrigação não vale a pena.

Algumas pessoas, lamentavelmente, pautam seu valor, bem como a importância que elas têm pro outro, pelos presentes que ganham ou, pior, pelo valor monetário deles. “Presentes caros significam que quem me presenteou gosta muito de mim”. “Presentes baratinhos significam o contrário.” Será que é isso mesmo? Cuidado com os clichês!

Se você pode presentear alguém, faça-o com consciência. Se não pode, experimente exteriorizar o seu carinho e a sua gratidão de outra maneira. Arrisque fazer diferente neste Natal: invista seu 13º e faça um bazar de trocas entre os amigos e a família. Aproveite e separe aquilo que você ganhou no último Natal e de que não gostou. Isso pode agradar alguém, porque os gostos são diferentes. Confeccione cartões expressando seus sentimentos e junte com algo que você mesmo pode fazer em casa. Use sua criatividade e inove. Consumir menos é uma responsabilidade de todos para a preservação do planeta. Pense nisso! E Feliz Natal!


Angélica Rodrigues Santos é psicóloga, professora e supervisora, coautora do livro “Família, afeto e finanças – como colocar cada vez mais dinheiro e amor em seu lar”, com Rogério Olegário do Carmo (Ed. Gente).

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Betes!



“Vou morrer”.
Mas este foi meu segundo pensamento.
A primeira coisa que me veio à mente foi “Ainda existo!”
E o espanto por ainda existir.


O primeiro teste foi bastante simples: projetamos a microcâmera cinco minutos para o futuro, ela permaneceu lá por alguns centésimos de segundo e retornou, trazendo uma foto da parede de fundo do laboratório.  Mais precisamente, ela trouxe do futuro a imagem, previamente definida, que projetamos a partir do quarto minuto. 

Décadas de estudo e quilômetros de equações, e finalmente o teorema basilar da Teoria Unificada das SuperCordas foi provado: era possível, efetivamente, navegar em curvas hipostasiadas pelas soluções de Gödel.  E mais: como Jules Boltzmann, o físico-chefe do CBPF[1], previra, a navegação se dava em sentido oposto ao previsto inicialmente, ou seja, navegava-se para o futuro, e não para o passado.

Desnecessário dizer que foi o evento científico mais divulgado pela mídia e mais acompanhado de manchetes sensacionalistas de que se tem notícia. Mas a equipe de Boltzmann estava focada demais nos próximos passos para prestar atenção nesses detalhes.

E o próximo passo foi justamente tentar validar os postulados de Dolfinger sobre a possibilidade de paradoxos, e a consequente possível construção de um outro universo, com um encadeamento diferente. Boltzmann acreditava firmemente que os paradoxos eram possíveis, mas tanto ele quanto o resto de sua equipe – da qual tive orgulho de participar – acreditávamos em uma abordagem ligeiramente diferente sobre os efeitos resultantes dos paradoxos temporais.

O teste correu em duas etapas. 

Na primeira etapa, a microcâmera foi enviada novamente para o futuro, e trouxe de volta uma sequência de dez fotos de imagens que foram aleatoriamente escolhidas e projetadas pelo computador do Centro. Quando, cinco minutos depois, a câmera apareceu dentro do campo de contenção e o computador sorteou e projetou as mesmas dez imagens a partir de um conjunto de cerca de sete bilhões de imagens possíveis, ficou provado que a estrutura temporal tende a evitar paradoxos.

Na segunda etapa, a microcâmera foi projetada pela terceira vez ao futuro e retornou novamente com dez imagens. Rapidamente, a equipe retirou a câmera da zona de projeção e a ligou ao computador, que removeu as dez imagens do banco de imagens. Quando a câmera apareceu, vinda do passado, o computador apresentou uma nova sequência de imagens, deixando a câmera retornar ao passado com imagens diferentes das que havíamos conseguido cinco minutos antes. No presente, nesse mesmo instante, as imagens armazenadas na câmera passaram a ser as novas imagens.

Nossa equipe festejou muito mais esse segundo teste, pois na verdade o primeiro teste apenas anunciara para o mundo o que já fazíamos há vários anos com táquions, depois com grupos de átomos, depois com nanoconstructos.

O segundo teste, para nós, comprovava que toda a linha de trabalho que vínhamos seguindo há anos era válida, e abria todo um novo horizonte possível de experimentos: se o contínuo de tempo-espaço era flexível e se ajustava às mudanças, poderíamos usar isso a nosso favor!

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Por motivos diversos, desde o alto custo dos experimentos até o protesto de grupos fanáticos que apregoavam que nossas experiências levariam ao fim do mundo, a próxima projeção demorou quase um ano para ser autorizada. 

Boltzmann em pessoa fez questão de apertar o botão que projetava a microcâmera cerca de dez anos no futuro – o tempo máximo que conseguíamos até então – e a mantinha lá por quase vinte segundos, consumindo energia suficiente para iluminar uma pequena cidade por um mês.

Como planejado pelo físico, a câmera retornou com uma quantidade imensa de informação, enviada pela contraparte futura de nossa equipe: todas as informações, incluindo equações, diagramas e fotos diversas das descobertas do CBPF nos próximos dez anos. Conforme o combinado com a equipe, todo o conhecimento trazido do futuro foi creditado aos seus respectivos futuros descobridores, incluindo diversos trabalhos de físicos que (ainda) não faziam parte da equipe, e mesmo de um estudante que ainda cursava o ensino médio.

O esforço para estudo e aproveitamento do trabalho começou imediatamente; e conforme projeto de lei aprovado meses antes, o dinheiro oriundo das patentes reverteu-se para o Centro até a data de sua descoberta futura, quando passaria então para o descobridor – ou para quem seria o descobridor, caso as informações não tivessem vindo do futuro.

A imprensa, a essa altura, tinha se focado nos benefícios imediatos das “maravilhas vindas do futuro” e em discussões éticas ou religiosas tendo como pano de fundo a viagem temporal; desistindo de qualquer tentativa de entender ou explicar a seus leitores os paradoxos envolvidos nessas viagens ou os detalhes éticos e legais do empreendimento.

Paradoxo ou não, foi o dinheiro dessas patentes que permitiu que Boltzmann criasse em menos de dois anos os protótipos das células de carbono de alta energia, o gerador de fusão controlada e o novo projetor de campo de distorção temporal, com tamanho e autonomia bem maiores que o utilizado nos primeiros experimentos.

E foi aí que tudo deu errado.

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Na primeira execução, Boltzmann sugeriu que projetássemos um campo vazio, esperando receber algo do futuro. O contrato e as leis se mantiveram as mesmas, com a diferença que agora não receberíamos apenas informações, estando aptos a receber até mesmo modelos de invenções a serem criadas.  Em uma brincadeira estilo “bolão”, cada cientista anotou o que achava que poderíamos receber do futuro, e quem acertasse ou chegasse mais perto levaria o dinheiro apostado por todos. 

As apostas variaram desde “uma versão melhor do projetor de campo”, aposta do próprio Boltzmann, até “vacinas para doenças que iriam aparecer nos próximos anos”, de Fannete-Marie Shelley, francesa que se unira ao grupo no correr dos últimos meses, atraída por uma patente creditada a ela por um trabalho que ela ainda estava pensando em iniciar.

Mas ninguém esperava o que recebemos quando projetamos o campo por trinta segundos, a exatos vinte anos no futuro: quando o efeito fotoelétrico diminuiu e pudemos tirar os óculos de proteção, no centro da sala uma estranha criatura nos encarava, balançando lentamente o corpo e virando a cabeça de lado, enquanto piscava curiosamente os olhos multifacetados.

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A seção do laboratório onde o campo era projetado era hermeticamente selada, e só foi aberta dois dias depois, quando um novo local para o bizarro ser foi preparado. Homens armados com bastões elétricos e armas, devidamente protegidos por trajes de proteção biológica, encaminharam o ser para um transporte e daí para a seção hospitalar que havia sido incrementada com uma área de isolamento total. A coisa seguiu passivamente, sem oferecer resistência.

A comoção gerada pelo aparecimento da criatura foi grande, e pressão da imprensa e da opinião popular forçou o Centro a paralisar todas as pesquisas até que desse uma explicação definitiva para o aparecimento do suposto animal.

A equipe isolou-se no Centro, então, concentrando seus esforços para decifrar aquela moderna esfinge.

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A criatura, cujo pelo longo e rosa cobria todo o corpo, foi logo batizada de “Bete”, em homenagem à secretária do Centro, cuja obsessão por roupas e objetos rosa era notória. Os movimentos de seu corpo, em eterno balançar e com os longos braços sempre dobrados, com as mãos quase unidas, lembravam em muito os de um louva-a-deus. Era um bípede, quase se assemelhando a um primata na aparência geral, mas com olhos e um formato de rosto que evocavam um quê do reino dos insetos. Nas raras vezes em que emitia algum som, ele soava como uma série de estalidos gerados pela boca, sem participação da garganta.

Afora as óbvias diferenças externas, seu corpo era estranhamente humano, com pulmões, rins e alguns outros órgãos idênticos aos humanos. O coração era maior e batia cerca de duzentas vezes por minuto, e o cérebro avantajado e complexo sugeria capacidade cognitiva superior à dos primatas.  Estranhamente, o animal parecia assexuado, e alguns órgãos desconhecidos permaneciam inativos em seu corpo, o que levou a uma série de teorias, todas inconclusivas.

O diagnóstico ao fim de seis meses foi que o ser não carregava nenhuma doença e não representava perigo aos humanos. Além disso, era pacífico e obedecia ordens, o que levou a equipe do Centro a sugerir que provavelmente era algum tipo de ser geneticamente modificado para realizar atividades básicas para a sociedade do futuro.

Os cientistas estavam preparando uma apresentação do Bete aberta ao público em geral, para demonstrar que o ser era inofensivo, quando ele escapou, fugindo para o Morro do Pasmado, perto do Centro. Na fuga, ele matou sete pessoas, se movimentando em uma velocidade que as câmeras de segurança mal registraram.

Três meses de buscas infrutíferas depois, um grupo de uma dezena de Betes atacou uma igreja evangélica na favela da Rocinha, matando diversos fiéis e raptando outros tantos.

Um ano após o primeiro ataque, o Rio de Janeiro precisou ser evacuado.

Isso foi há quase dezenove anos. Desde então, a situação piorou em muito.

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Nós, os remanescentes da equipe original de Boltzmann, com o apoio do que havia restado do governo, gastamos os últimos anos, e muitas vidas, criando e aperfeiçoando um homeotraje – uma roupa semelhante a um traje de mergulho, composta por nanoconstructos que mantêm sua superfície externa exatamente à temperatura ambiente. Como os Betes enxergam apenas na zona dos raios infravermelhos, basicamente ficamos invisíveis para eles. O traje se completa com borracha de alto impacto e isolamento acústico, na tentativa de nos deixar, também, inaudíveis para os monstros.

Com a queda final das linhas de comunicação e dos últimos resquícios de governo, restamos nós três, no laboratório escondido no pico das Agulhas Negras. Com o aproximar da data fatal, fizemos um sorteio, e restaram a mim o homeotraje e a missão suicida.

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Meus colegas deixaram-me o mais próximo possível do Rio, trafegando por locais que sabíamos ser de pouco interesse para os Betes. Com um pouco de sorte, sobraram apenas algumas dezenas de quilômetros para eu percorrer a pé. A despedida foi calorosa, mas sem lágrimas. Não nos sobraram lágrimas, depois dos últimos anos.

Quanto mais eu me aproximava de Botafogo, mais lentamente eu precisava ir para não ser descoberto. Cheguei a passar um dia inteiro imóvel, escondido em um nicho, com medo até de respirar mais ruidosamente.  Felizmente, a maioria das criaturas dormia de noite, o que me dava uma boa liberdade de movimento com o homeotraje.

Mas mais do que medo, o que senti foi surpresa: os Betes eram muito mais organizados e inteligentes do que pensávamos. Abandonei imediatamente a ideia de que eles eram marginalmente inteligentes quando, escondido, vi pela primeira vez dois deles conversando, as línguas estalando em diversos tons enquanto os braços dançavam em gestos quase humanos.  Quando os vi utilizando instrumentos complexos, tanto alguns que deixamos para trás como outros que não reconheci, percebi que a humanidade estava fadada à extinção.

A menos que minha missão tivesse sucesso.

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No dia e hora exatos, eu estava lá.

O laboratório do CBPF havia se tornado, aparentemente, o centro de algum tipo de culto dos Betes. As criaturas rosadas, algumas delas se destacando por faixas de pano finamente bordadas em torno da cabeça, circulavam lentamente entre as salas do antigo centro. Eu passara a última semana para conseguir chegar ao laboratório de projeção, e os últimos dois dias sem comer, esperando em um canto escondido.

Duas horas antes do momento certo, dez ou doze das criaturas entraram na sala. Como se soubessem o que iria acontecer – diabos, com certeza sabiam! –, sentaram em um círculo em torno da zona onde, em breve, seria gerado o campo de projeção que conectaria o presente com vinte anos atrás.

Quando faltavam quinze minutos, os Betes começaram a entoar um cântico exótico, enquanto um deles, que tinha uma faixa bordada à cabeça e outra à cintura, se levantou. Lentamente, a criatura removeu as faixas e se aproximou do centro do círculo, ficando à espera.

O cântico soou mais alto, e as criaturas pareceram entrar em uma espécie de transe. A seguir, a sala foi iluminada por um jorro de luz, quando o campo gerado pela minha antiga equipe se formou no centro da sala. O visor do capacete compensou o excesso de luz, permitindo que eu visse o que estava ocorrendo.

O Bete no centro do círculo cumprimentou os demais com um gesto ritualístico, dando um passo e entrando inteiramente na zona de projeção, que iria se desligar em mais vinte e cinco segundos.

Rapidamente, mas evitando barulhos, corri para o campo de projeção e estendi o braço até sua zona limítrofe. A interferência dos metais pesados do traje, como já sabíamos, fez com que o campo entrasse em colapso no momento em que a projeção iria se encerrar.

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O brilho do campo flutuou e se apagou abruptamente, com um estrondo que indicava que um vácuo se formara na zona de projeção.

Imediatamente, Boltzmann sabia que algo dera errado. O vácuo só ocorreria se a porção do presente projetada para o futuro houvesse, por algum motivo, deixado de existir no presente.

Com efeito, ao retirar os óculos, os cientistas do CBDF constataram que o experimento falhara.

Ninguém ganhou o “bolão”, a imprensa e os grupos radicais alardearam o fracasso, sugerindo motivos diversos.

A equipe do Centro, no entanto, tinha verbas para continuar suas experiências.

Verbas, e tempo.

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Os postulados de Dolfinger contribuíram decisivamente, anos depois de sua morte, para o estabelecimento da Teoria Unificada das SuperCordas.

Segundo Dolfinger, paradoxos temporais eram possíveis, e suas equações indicavam que os paradoxos geravam universos diferentes, com novos encadeamentos temporais. Infinitos universos, para infinitos paradoxos possíveis.

Jules Boltzmann, por outro lado, criou toda uma nova série de equações que se baseavam na ideia de que não havia nenhum outro universo além do nosso. Seu trabalho se encadeava com as equações de Dolfinger ao estabelecer que valores infinitos e o zero se equivaliam.

Apesar de não havermos conseguido nenhuma prova experimental sobre este ponto específico, todo o trabalho do CBPF se baseava na crença de que as ideias de Boltzmann eram válidas.

Por isso, ao ver que o campo de projeção se desfizera, lançando pequenos pedaços do Bete e de meu braço por todo o laboratório, meu primeiro pensamento foi de surpresa:

“Ainda existo!”
Então, a dor me atingiu e vi os Betes do círculo começarem a se levantar.
E foi quando pensei:
“Vou morrer”.


Alexandre Lobão



[1] Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, situado em Botafogo, no Rio de Janeiro